19 de junho de 2012

Dissolução

Me revirei na cama e acordei com dor. Na noite anterior, algumas horas antes, essa conversa se passava durante o jantar:
- Eu não sei se tem alguma coisa crescendo aqui. Mas se tiver, eu já amo muito, muito.
Meu marido sorriu. Passou a noite com uma cara de apaixonado, me abraçava toda hora, colocava a mão na minha barriga. Minha menstruação estava atrasada treze dias.
Às 4h da madrugada, precisei me levantar. A dor era intensa e eu queria gritar. O dia não havia amanhecido e o único som que eu ouvia em casa era o dos meus próprios passos. Caminhei até o banheiro e me desesperei com o sangue.
Sentada no chão, vi aquela mancha vermelha se desfazer em água. Com a mão na minha barriga, rolaram lágrimas salgadas. Meu coração e esperanças se desfizeram em mais água.


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Uma canção


Eu quero ver as cores.
Eu quero ver as cores bonitas.
Não vale à pena viver, se não pelas cores do mundo.


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28 de maio de 2012

Seize the day

A gente vive assim: acorda cedo, toma um café forte, sai de casa, anda de ônibus, vai para o trabalho. Chega em casa, brinca com o cachorro, faz janta, conversa, vai pra cama. A gente coloca  umas necessidades fisiológicas entre uma coisa e outra, mas a ordem da vida é essa. E, daí, vem outro dia.
Tem calendário e reunião pra tudo no escritório. Tem agenda. Tem horário no relógio, tem no celular, tem na tela do computador. Quando chega sexta todos dizem "happy Friday", quando chega segunda, ninguém diz nada. A gente tem listas no OneNote, tem anotações, tem lembretes, tem lembretes eletrônicos, tem flag no Facebook. A vida de hoje é sinônimo de horário e de planejamento.
Eu acho que planejo mais do que a média da população. É quase incontrolável, quase um dom inato. Planejo o mês, a semana, o dia. Chego no trabalho e planejo horas para outras pessoas, seus afazeres, o projeto. Chego em casa e planejo a janta, o final de semana, as férias. Para tudo há planejamento. Mas e o que a pessoa faz quando as coisas saem de rota?
Pânico. Total. Medo. Eu estou convencida de que eu não sei como viver carpe diem. Eu surto se as coisas começam a desandar. Meu irmão me lembrou ontem que quando eu era criança, eu tinha fome de certas coisas. Não era. Era minha tentativa de manipular a minha mãe, entre meus 5 e 10 anos de idade, a fazer a comida que eu tinha planejado comer e não sabia cozinhar.
Trocar de turmas no colégio sempre foi difícil. Entre pré-escola e mestrado foram oito instituições de ensino diferentes -com graus e contextos diferente, teve choro em todas. Seattle é a minha quinta cidade para moradia, esta é a décima casa. Cada mudança teve um peso maior do que a carga física. Não adianta quando, onde, se pequena ou grande, mudanças são sempre difíceis e sofridas para mim.
Agora, me diz, como (e quando) você joga tudo para o alto e começa a viver o agora? Eu mal consigo escrever esse texto sem constantemente pensar como deveria terminá-lo. Talvez, seja a hora. Já.


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10 de abril de 2012

Aqui


Falo calada à porta branca.
É minha casa,
Mas me vejo em um campo de tulipas amarelas.
Apazigua a alma ver as trilhas da vida,
É vasto o campo, mas fixei meus pés nessa terra.
Estou aqui porque estou aqui, repito.
Havia um dizer da minha infância,
Lembrando que não há aqui lá.


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28 de fevereiro de 2012

Corda bamba


Ando em uma corda bamba
Feita de vidro e acrílico
Sinto a corda cortar entre os dedos
A cada leve passo em falso
E sei que
Um desequilíbrio qualquer
Não só me joga do alto
Mas despedaça todo meu caminho.





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2 de janeiro de 2012

Nós mudamos o mundo

Olhou pela janela e suspirou. Poderia ela um dia captar todas as pequenas coisas, todos os detalhes, as cores e tudo o que a vista da janela mostrava à ela dentro de uma caixa? A ideia de que o mundo pudesse se esvair um dia, e de que todas as coisas a sua volta pudessem desaparecer, deixava a pequena Lívia desesperada. Volta e meia, antes de dormir, ela cobria o olho direito com a mão direita e tentava ver na escuridão do quarto com o olho esquerdo; depois, fazia o mesmo teste tapando o olho esquerdo, só para ter certeza de que as coisas, o quarto, seus brinquedos e ela mesma ainda estavam no mesmo lugar. A escuridão total a preocupava.

Lívia contornou com dois dedos os pedacinhos de madeira que criavam quadrados na janela. Ela queria guardar o quadrado em que via a árvore, o quadrado em que via o carro e cada quadrado da janela, com cada vista, em sua caixa de bonecas. Talvez, quando abrisse a caixa amanhã, tudo estaria lá, já aguardando por ela.

O vidro da janela estava gelado e aquilo despertou sua curiosidade. Com a mão toda espalmada, tocou em um quadrado todo e notou que o formato de sua mão ficara lá e que, de repente, a vista da árvore não era mais a mesma. A vista havia mudado por causa dela. Sentiu medo. De pés descalços, correu para a saída do quarto e largou a sua caixa de bonecas em cima da cama. Viu a mãe à espera na porta.

- Lívia, coloca uma meia nesse pé. Você vai ficar doente.

Lívia ergueu os braços para abraçar a mãe e pôs seus pés sob os dela. Disse:

- Mãe, posso ficar aqui, em cima do seu pé? É bem melhor que a minha meia. Parece bem mais seguro se eu não precisar andar.


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Votos

Venha uma azaleia rosa e branca,
Um beija-flor,
O sol da minha infância.

Venha logo, inebriante felicidade,
Um recomeço-embrião,
Já vem tarde o novo ano.


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5 de novembro de 2011

Corre no sangue essa vontade


De desbravar
De correr
De buscar
De me encontrar.

A vida e seu leque, sua manga, de oportunidades.
O destino é irracional.


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26 de julho de 2011

Quem te disse?

Quem te disse que os dias vao e vem
Que se nao era para ser por isso nao aconteceu
Que as esquinas da vida te levam em direcoes novas
Que depois de cada tempestade ha sempre sol?

Quem te disse que vencerao sempre os justos
Que quem corre sempre alcanca
Que a vida e uma montanha-russa
Que que tem azar no jogo tem sorte no amor?

Quem acreditou viveu num mundo
Que nao era o meu
Sofreu por ingenuidade
Mas saboreou esperanca.


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31 de março de 2011

Sobre sonhos

Fechou o esmalte vermelho e sorriu. Ela tinha um nome bonito, Luisa, e usava bem o plural e a concordancia. Os olhos quase transbordavam quando falava da viagem e do seu sonho. Luisa era manicure em Porto Alegre e estava com a passagem marcada para a Dinamarca. Deixaria seus dois filhos, uma de 8 e outro de 10, para viver a busca de uma vida na Europa. Me disse:

- Estou indo daqui a um mes. Falei com um agente. Ele foi super bem educado, era bem informado, um amor. Eu nem acredito que estou indo. Tu nao sabes o quanto eu lutei. As vezes olho para o passaporte e choro.
Luisa ja tinha 42 anos, mas aparencia de 20 e poucos. Ela era negra e linda. Dava para sentir no tom da voz dela uma esperanca desesperada, como se em um outro pais, em outro lugar, toda a vida imediatamente mudaria para melhor.
Tive medo por ela, pensei em trafico de mulheres e aproveitadores pelo mundo, mas so consegui sorrir de volta e desejar boa sorte. Foi a primeira vez que encontrei Luisa, mas ela me abracou forte e me deixou com um vazio. Ja faz um tempo que nao almejo nada tanto assim.


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